Swift

A 20 dias de terminar a faculdade de medicina.


Por onde começar a escrever um texto para falar sobre uma era inteira da sua vida que termina? Em março de 2010 eu chegava à Argentina. Sozinha. Sem saber dizer mais que hola. Não sei definir bem o que eu sentia. Eu tinha chegado dos EUA em dezembro de 2009, depois de ter passado 2 anos lá também. Sozinha. Sem saber dizer mais do que hello. E me virei. Pensei "que tão diferente pode ser?". 

A verdade é que eu não tive nem um pouquinho de frio na barriga vindo pra cá. Acho que gastei tudo quando mudei pros EUA. Eu tinha curiosidade, isso sim. Vontade de algo novo. Nunca tive total certeza do que eu estava fazendo. Pra quem estudou Jornalismo e tinha o cérebro totalmente programado para a área de humanas, a ideia de ser médica sequer foi cogitada durante toda a minha vida. 

Mesmo assim, eu vim. Eu esperava que fosse difícil - afinal, é medicina, né? O que eu não esperava era que fosse me consumir de uma forma tão maravilhosa e tão horrível ao mesmo tempo. Não pensei que fosse dedicar todo meu sono, todas minhas energias, toda minha vida social, todo meu tempo livre. Isso a gente não leva em consideração. Você chega em outro país, sem saber a língua, para estudar um dos cursos mais difíceis do planeta... gente doida pra tudo, né?

Perdi as contas dos momentos em que eu pensei que isso não era pra mim. Que eu não ia conseguir. Sentada, olhando para os livros às 3am, com as lágrimas molhando as folhas. Se não fosse isso, o que ia ser? Eu não via nenhum outro futuro além desse. Virou algo meio que desafio. Eu precisava terminar a faculdade. Precisava provar pra mim mesma que eu era capaz de terminar algo que eu havia começado. Não tinha mais volta. 

Com cada ano, eu fui crescendo como pessoa. Fui regredindo também em várias áreas da minha vida: família, saúde, amigos. Tantas datas comemorativas perdidas! Tantas vitórias dos meus familiares que eu tive que viver por fotos! Tantos natais que eu, sentada, estudando, tive que contentar em ver fotos de toda a família reunida para a ceia de natal! Tantos amigos que se afastaram por eu nunca ter tempo. "Ah, não te chamei porque sabia que você não podia". E era verdade. 

Demorou muito para que eu pudesse encontrar um equilíbrio. Para que eu pudesse entender que a medicina era parte da minha vida, mas que ela não me definia como pessoa. Eu precisava cuidar de mim. Da minha sanidade mental. Da minha vida social. Da minha vida amorosa. Cada boa nota, tinha por trás uma amizade abandonada, um encontro não vivido, um casamento de um amigo perdido, uma parte de mim que deixou de ser. 

Eu demorei muito para me definir além da medicina. E, se eu tivesse que dar um só conselho para você que está começando ou que está no caminho: Dê o melhor de si, mas não dê tudo. Sacrifique horas de sono, mas não sacrifique sua saúde. Rejeite saídas se precisar, mas não abandone seus amigos. Recuse convites, mas não recuse todos. A medicina sempre vai estar lá para quando você voltar. Sua vida talvez não. 







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6 comments

  1. Nossa precisava ler isso nesse exato momento.Rsrss... Lindo texto!! vc merece essa conquista!! PARABÉNS GAROTA!!!

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  2. 6 anos em algumas linhas... entendo bem o que vc passou e eu queria ter 1/3 da coragem que voce tem! é chegado o momento de colher o que plantou!

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    1. foi muito sufoco! mas valeu a pena!! bota essa coragem em jogo mulher!! :) vou tá torcendo aqui!

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  3. Uall...Parabéns pelanconquistabe e esforço.. E também por este texto. Muito bom!

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